A ciência sempre desenhou a objetividade dos fatos para o desenvolvimento da verdade indubitável, e assim ela o fez com as ciências naturais, e também tenta fazer com as ciências humanas, porém as ciências humanas com suas intersubjetividades e subjetividades, além é claro de concepções metafísicas, acabam criando uma resistência epistemológica nos estudos dos processos mentais. Quando a ciência sociológica e antropológica começaram a questionar nossos costumes, crenças e tradições, criou-se naturalmente uma resistência social sobre esse ato reflexivo, obviamente era de se esperar, até porque nosso senso de identidade enquanto vínculos culturais estavam sendo questionados pelos ramos dessa ciência. A religião é naturalmente uma instituição que reforça nossas crenças e costumes, as verdades já estão postas, não há qualquer necessidade de repensar o mundo e suas representações no ambiente místico-religioso. O grande dilema acontece quando essa postura crítica começa a penetrar no âmbito subjetivo do sujeito, assim como empreendeu a psicanálise. A ciência virou resistência às novas concepções epistemológicas da psicanálise, a organização social com a derrubada das tradições, costumes e crenças criaram um desamparo humano, o desamparo que desdobra-se no chamado niilismo do filósofo Nietzsche, ou seja, o homem está entre o paraíso perdido e a terra prometida, no meio do caminho, dividido. A psicanálise , por sua vez, sistematiza epistemologicamente a divisão de um homem em consciente e inconsciente, onde demandas inconscientes determinam psiquicamente o comportamento e o modus operandi do sujeito. É o sujeito sendo sujeito dele mesmo. A necessidade de organizar o caos potencial social a partir da crítica sociológica e antropológica gerou um fator ansiogênico, e agora não somente no âmbito social, mas também no âmbito do intrapsíquico do sujeito, onde ele terá que se haver com a organização da sua própria autonomia emocional, e autodeterminação. Agora o indivíduo desamparado socialmente procura meios para encontrar o equilíbrio em sua própria ferida narcísica. A mesma casa que outrora era fundamentada por imperativos tradicionais, de crenças e costumes, que asseguravam o equilíbrio emocional sem a menor hesitação. Dito isso, podemos concluir, que é desse contexto histórico que emerge o desespero humano, o medo irracional e o oportunismo das várias pseudociências. Há uma aflição compartilhada inconscientemente para a volta do paraíso perdido. A arcaica matriz narcísica fusional é o desejo do sujeito que não suporta ver a casa em ruínas, aquele que fecha as portas interiores, que deixa de resolver seus complexos. A espera pelo mundo na ânsia pela volta da onipotência infantil com a grande matriz maternal. Estamos sendo povoados por uma legião de crianças em corpos de homens e mulheres, e é pelo caos que vamos ter que estabelecer a cura, e a ordem.
Nesse espelho de relações que fundamenta a vida, estar em uma relação limpa consigo e com as alteridades é a grande vantagem.